As oito horas da jornada de trabalha do sábado tinham terminado. Sentia-se cansado, exausto e acabado. Não se sentia fisicamente cansado, mas mentalmente. Atuou durante 8 horas – sim, da mesma forma que um ator o faz – e não conseguiria agüentar mais ninguém e, talvez, nem a si mesmo.
Ao chegar em casa sentou-se no sofá, assim meio de lado, largou a mochila no chão e simplesmente ficou ali, apenas pensando. Não gostava de se ver pensando em futilidades como “minha nossa, precisa chover, as plantas estão secas!” ou “o passe de ônibus não pode aumentar mais”, pois nada disso importava para ninguém.
Será que sua vida fora planejada para ser apenas isso? Se tinha sido planejada, então nada faria o seu caminho de derrotas ser alterado, que sentido isso teria? Por que precisava ser dessa forma? Ficou duas horas assim deitado e em duas horas não chegou a nenhuma conclusão. Em duas horas passou a sentir ainda mais fraco do que antes, passou a sentir o ar ainda mais pesado do que antes, a luz tornou-se mais forte e menos presente, passou a perceber que ele não precisava da vida, ela era quem precisava dele.
Em um momento de euforia procurou desesperadamente por remédios ou meios rápidos de terminar tudo naquele exato momento, ali mesmo, naquele canto feio da cozinha, logo ao lado da mesa pequena que ainda estava com os restos do café da manhã. Não precisaria mais ter de escolher os alimentos industrializados mais do que sem gosto no supermercado, não precisaria mais pegar ônibus, não teria mais a necessidade de dinheiro, água, luz, telefone, TV e o principal: não teria mais de aturar as pessoas. Era uma solução simples para um problema complexo. Uns diriam que foi por sorte, mas o fato é que ele não encontrou remédios e nem mesmo a motivação inicial ainda estava ali naquele cômodo pequeno e branco. Então ele se acalmou.
Com o passar dos minutos seu nojo por si mesmo só aumentou.
Ele era um traste. Um ser inútil para o mundo e para ele mesmo. Seu café não prestava, odiava o pão com queijo do café-da-manhã, as pessoas não o conheciam, ninguém se importava com ele. Talvez nem ele mesmo suportasse alguém que fosse assim como ele. Decidiu tentar o outro lado. Tentaria viver o mundo como todas as outras pessoas.
Iria trabalhar amanhã. Tentaria sorrir e ser feliz, tentaria levar o papo das pessoas adiante, daria “oi” ao porteiro e se não gostasse disso, tudo bem, procuraria um bar ou boate abertos de noite e tentaria se divertir da forma “normal”.
A ideia parecia boa, só restava colocá-la em prática.