Sábado. Manhã ensolarada e ligeiramente quente. O sol já entrava e dava tapas na sua cara. Já era tarde.
Toda expressão pode ter duas, ou até mais, interpretações. Isso só depende de quem ela se refere. No caso dele o significado nunca é o primeiro, é sempre o segundo.
Já era tarde. Não para a população em geral, que se levanta depois das nove horas. Mas era tarde. Precisava levantar, pois a vida já lhe chamava pelo nome e sobrenome e cobrava e dava suas ordens. Sábado, apesar de fazer parte do “mundo mágico do final de semana”, era dia de trabalho para ele. Com a mesma carga horária de um dia semana. Uns diziam que nos sábados o trabalho era mais intenso. Mentira deles.
Acendeu a luz. O quarto continuou com a mesma iluminação de antes, o sol já bastava para deixar tudo claro. Desligou. Sentou-se na cama e tateou suas pantufas pelo chão com os pés ainda quentes. Como sempre calçou o pé esquerdo na pantufa direita e o pé direito na pantufa esquerda. Foi ao banheiro e se limpou.
Na cozinha, como sempre, não tinha pão. Tinha, como já era habitual, um bolo que na prateleira do supermercado parecia bom. A vida dele era feita disso: ilusões, desilusões e solidão. Ou comia bolo ou tomava uma xícara de chá, pois estava atrasado. Ou um ou outro. Os dois juntos era algo que nem passava pela sua cabeça.
Sua vida não tinha sentido. Alguns até podiam dizer que isso era algo normal, que em breve descobriria seu propósito. Talvez ele fosse a exceção dessa regra sem sentido.