minha vida campestre


Pequena história sem fim. Pois nem tudo na vida precisa de sentido.


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Tudo está e estará lá.

07.11.09, Comments

As oito horas da jornada de trabalha do sábado tinham terminado. Sentia-se cansado, exausto e acabado. Não se sentia fisicamente cansado, mas mentalmente. Atuou durante 8 horas – sim, da mesma forma que um ator o faz – e não conseguiria agüentar mais ninguém e, talvez, nem a si mesmo.

Ao chegar em casa sentou-se no sofá, assim meio de lado, largou a mochila no chão e simplesmente ficou ali, apenas pensando. Não gostava de se ver pensando em futilidades como “minha nossa, precisa chover, as plantas estão secas!” ou “o passe de ônibus não pode aumentar mais”, pois nada disso importava para ninguém.

Será que sua vida fora planejada para ser apenas isso? Se tinha sido planejada, então nada faria o seu caminho de derrotas ser alterado, que sentido isso teria? Por que precisava ser dessa forma? Ficou duas horas assim deitado e em duas horas não chegou a nenhuma conclusão. Em duas horas passou a sentir ainda mais fraco do que antes, passou a sentir o ar ainda mais pesado do que antes, a luz tornou-se mais forte e menos presente, passou a perceber que ele não precisava da vida, ela era quem precisava dele.

Em um momento de euforia procurou desesperadamente por remédios ou meios rápidos de terminar tudo naquele exato momento, ali mesmo, naquele canto feio da cozinha, logo ao lado da mesa pequena que ainda estava com os restos do café da manhã. Não precisaria mais ter de escolher os alimentos industrializados mais do que sem gosto no supermercado, não precisaria mais pegar ônibus, não teria mais a necessidade de dinheiro, água, luz, telefone, TV e o principal: não teria mais de aturar as pessoas. Era uma solução simples para um problema complexo. Uns diriam que foi por sorte, mas o fato é que ele não encontrou remédios e nem mesmo a motivação inicial ainda estava ali naquele cômodo pequeno e branco. Então ele se acalmou.

Com o passar dos minutos seu nojo por si mesmo só aumentou.

Ele era um traste. Um ser inútil para o mundo e para ele mesmo. Seu café não prestava, odiava o pão com queijo do café-da-manhã, as pessoas não o conheciam, ninguém se importava com ele. Talvez nem ele mesmo suportasse alguém que fosse assim como ele. Decidiu tentar o outro lado. Tentaria viver o mundo como todas as outras pessoas.

Iria trabalhar amanhã. Tentaria sorrir e ser feliz, tentaria levar o papo das pessoas adiante, daria “oi” ao porteiro e se não gostasse disso, tudo bem, procuraria um bar ou boate abertos de noite e tentaria se divertir da forma “normal”.

A ideia parecia boa, só restava colocá-la em prática.

31.10.09, Comments

historia

Trabalhava atendendo as pessoas. Este era o maior problema do seu emprego: atender pessoas, lidar com suas vontades e ouvir conversa fiada. Decidiu que suportaria isso pelo menos até terminar sua especialização. Aí sim mandaria um belo foda-se para tudo que estava fazendo agora.

As pessoas são sempre estúpidas perto de desconhecidos. Sempre são estúpidas. Ele não conseguia suportar ninguém que aparecia e iniciava conversa enquanto estava no trabalho. Todos agiam de maneira forçada, às vezes grosseira demais e outras vezes as pessoas queriam agradar tanto que fingimento e a força que faziam para parecerem doces eram coisas ridiculamente exageradas e absurdas. Nenhuma delas o agradava. Achava tudo isso nojento, chato e incrivelmente idiota.

Todas essas agressões à vida – o trabalho forçado, a ânsia que as pessoas tem de comprar e conseguir dinheiro (pedaços de papel) – e ao que ele considerava importante realmente o deixavam incomodado, triste e sem vontade. Chegar em casa depois das 22 em um dia da semana piorava ainda mais a situação.

Por mais que tentasse, nos dias mais cinzentos era impossível não se rebelar contra a situação. Tinha estudado e concluído o segundo grau, portanto possuía um certo nível de conhecimento razoável – ao menos para os padrões sociais –, no entanto nenhum desses conhecimentos tinha utilidade real. Todo o tempo que perdeu na escola agora já estava perdido, pois tinha se decidido ir para – na verdade fora empurrado – a faculdade. Mais conhecimentos e mais tempo gasto para, no final, ter de aturar gente ignorante e sem conteúdo algum. Por que precisamos gastar nossos primeiros 20 anos, duas décadas inteiras, freqüentando salas de aula e professores? A resposta que a dona sociedade te dá é que você precisa ser alguém na vida.

Ele tinha terminado o ensino fundamental, o ensino médio, era graduado em uma faculdade e agora cursava uma especialização e ainda não era ninguém. Talvez, pensava, nunca chegaria mesmo a ser. Mas e daí? Muitos terminam a vida sem nunca terem sido alguém, apenas se enganando ao ser considerarem alguém.

24.10.09, Comments

historia

Sair de casa ou pisar no lado de fora eram tarefas fáceis. Nada disso lhe deixava envergonhado de si mesmo. As pessoas o incomodavam, eram as pessoas que o deixavam envergonhado. Não era algo neurótico, é que elas dificilmente entenderiam sua forma estranha de pensar. É como se seus olhos fossem capazes de perceber uma maior gama de cores, mais movimentos e sutilezas, mas, mesmo assim, sua vida fosse em preto e branco e câmera lenta.

Uma vez do lado de fora, os pensamentos começam a levitar devagar até flutuar majestosamente sobre tudo que ocorre à sua volta. Caminhava ou pedalava até o trabalho. Não hoje, pois era um sábado e estava atrasado. Seria obrigado a esperar o ônibus como muita gente, daquele tipo que gosta de reclamar de coisas banais e que puxam assunto comentando sobre o tempo ou sobre como o ônibus demora, todos um bando de seres imprestáveis que, pensando bem, não mereciam a chance de ter a vida nas mãos. E isso o incomodava muito. A vida em sociedade não faz muito sentido, pois as atitudes e o estilo de vida das pessoas era insensato. Nunca entendeu o real motivo para as pessoas sentirem essa necessidade mortal de estarem perto uma das outras.

De qualquer forma, ele gostava mesmo era de ir para onde quer que fosse de bicicleta. Ficou um tempo sem pedalar ao ouvir boatos de que isso poderia causar algum problema no seu desempenho sexual. Mesmo com pouca experiência nessa área, ele se preocupava com isso, então era algo que deveria cuidar. Tanto que ficou alguns meses andar, estava sempre a pé.

Evitava os pontos de ônibus e os coletivos cheios de gente não por nojo ou por não gostar de pobres, isso era besteira. Ir de bicicleta evitava o contato direto com pessoas, esse era o motivo maior. As pessoas é que eram horríveis. E sempre que ele podia evitar o contato social, ficava feliz e o grande peso conhecido como “ser sociável” nem sequer subia em suas costas.

Andar de bicicleta ainda o presenteava com a vantagem de apreciar a paisagem urbana – ele não se sentia incomodado com a tal “floresta de concreto”, considerava tal expressão um argumento bobo criado por pessoas que querem parecer diferente, mas que são tão estúpidas e vazias como qualquer um – e ouvir suas músicas preferidas, que são selecionadas a dedo, pois seu aparelho suportava algumas poucas dezenas de arquivos.

O prédio onde trabalhava já era logo ali na frente. O porteiro, como sempre, deu as boas vindas. É engraçado como existem muitos empregos onde a pessoa ganha para ser falso. Trabalhar como porteiro é um exemplo. Você conversa com pessoas inúteis para sua vida apenas porque você está aí parado. Nunca tinha sido porteiro, mas imaginava o quão chato é trabalhar nisso. Dizer oi e olá para muitas pessoas, tirar dúvidas sobre onde fica tal loja sem se zangar e explicar que logo ali ao lado tem um enorme quadro explicativo.

Apesar de não precisar ficar dando boas vindas e tchau para pessoas aleatórias, o seu trabalho era entediante também. Tinha se formado fazia mais ou menos dois meses e já tinha conseguido um emprego.

Seu dia de trabalho estava prestes a começar, porém o seu dia – aquele dia agradável que faz parte do final de semana – ainda estava longe. Entre o início do expediente até o final havia, além de 8 horas, muito atendimento a clientes chatos e insuportáveis. Sua vida seria insuportável até a hora de ir. A vida das pessoas é insuportável, mas só é porque elas permitem. Ninguém precisaria mesmo trabalhar se o dinheiro deixasse de ser importante.

Só mais oito horas.

10.10.09, Comments

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Sábado. Manhã ensolarada e ligeiramente quente. O sol já entrava e dava tapas na sua cara. Já era tarde.

Toda expressão pode ter duas, ou até mais, interpretações. Isso só depende de quem ela se refere. No caso dele o significado nunca é o primeiro, é sempre o segundo.

Já era tarde. Não para a população em geral, que se levanta depois das nove horas. Mas era tarde. Precisava levantar, pois a vida já lhe chamava pelo nome e sobrenome e cobrava e dava suas ordens. Sábado, apesar de fazer parte do “mundo mágico do final de semana”, era dia de trabalho para ele. Com a mesma carga horária de um dia semana. Uns diziam que nos sábados o trabalho era mais intenso. Mentira deles.

Acendeu a luz. O quarto continuou com a mesma iluminação de antes, o sol já bastava para deixar tudo claro. Desligou. Sentou-se na cama e tateou suas pantufas pelo chão com os pés ainda quentes. Como sempre calçou o pé esquerdo na pantufa direita e o pé direito na pantufa esquerda. Foi ao banheiro e se limpou.

Na cozinha, como sempre, não tinha pão. Tinha, como já era habitual, um bolo que na prateleira do supermercado parecia bom. A vida dele era feita disso: ilusões, desilusões e solidão. Ou comia bolo ou tomava uma xícara de chá, pois estava atrasado. Ou um ou outro. Os dois juntos era algo que nem passava pela sua cabeça.

Sua vida não tinha sentido. Alguns até podiam dizer que isso era algo normal, que em breve descobriria seu propósito. Talvez ele fosse a exceção dessa regra sem sentido.

26.09.09, Comments

historia

Acordou mais tarde que o habitual. É sábado e nas sextas ele sempre dorme mais tarde. Após comer sua pizza, navega pela internet, ouve música, lê ou escreve - depende da vontade, do humor do dia e também da quantidade de pizza ingerida. Pois é, ele não sai muito. E sim, o motivo é a falta de amigos.

É sábado. Dia de alegria, descanso e diversão para quase que uma totalidade da população que não trabalha nem estuda no primeiro dia do fim de semana. Para ele não é um dia de festa. Não daquelas festas regadas à luzes e música eletrônica ou cerveja. Ele faz a sua própria festa. À sua maneira. Quero dizer, se divertir não é apenas ir para um lugar escuro com muitas luzes piscando, lotado de gente suada e transpirando bastante, bebendo todo o tipo de bebidas com álcool e fazendo brincadeiras que quase nunca possuem graça de verdade. Se divertir é simplesmente fazer o que te agrada.

Fazer o que agrada é o que ele faz para se divertir. Dançar e beber não está na lista das coisas que ele considera como as mais divertidas. Sua lista é bastante pessoal e diferente. Todos os seus conhecidos - pois como já disse ele “sofre” de falta de amigos - não ousam retirar “dançar” e “beber” do topo dessa lista.

Mas sua vida não é ruim. Não pra ele.

19.09.09, Comments

historia

Começa agora.

A partir de agora, uma nova fase do minha vida campestre se inicia. Uma história está para começar.

12.09.09, Comments

O minha vida campestre na versão “twitter sem limite de caracteres” e de notas rápidas e sem valor termina por aqui. Tchau.

04.09.09, Comments

Essa noite tive um sonho bastante estranho. Foi assim: eu tava no banheiro, cagando. Na real eu já tinha terminado o que tinha que fazer e estava me limpando. Então, olho para a água e tem 2 minhocas brancas. Pego uma com a mão e quando olho bem de perto, aparece um cara que julguei ser um cientista ou um médico metido e ele começou a me explicar “Ah, essa é a espécie minhocas protuberantis, ela se alimenta de algodão doce (…)”. E aí eu acordei, no meio da explicação.

16.08.09, Comments