Finalmente tinha se dado conta do fracasso de pessoa que tinha se tornado. Sua vida havia chegado num estado de ânimo e espírito onde não teria vontade, pois força não seria a palavra certa, de sair do caminho de um choque violento do seu corpo contra um carro. Tanto faria. Nada perderia. Ninguém ligaria.
Porém, como todas as demais coisas na vida, nada acontece como precisamos, queremos ou planejamos. Não havia nenhum carro em alta velocidade vindo em sua direção nessa rodovia federal da vida, onde se escondem as piores sujeiras, as prostitutas mais baratas e doentes que cobram como se fossem de luxo, onde a gasolina adulterada é tida como a marca de maior excelência, onde, por mais que todas as placas digam que “o dinheiro do pedágio irá servir para a melhoria da rodovia” nada realmente acontece.
Ele está simplesmente ali, na beira do asfalto observando a vida. E não pense você que nesta simples analogia, você estaria atravessando essa rodovia em um carro de luxo, você está sentado ali na beirada também, apenas imaginando estar no carro de luxo.
Na margem da rodovia, você tem exatas duas opções. Quem escolhe a primeira das delas passa todas as tardes e manhãs ociosas (e também as ditas “produtivas”) apenas delirando e idealizando com uma imensa riqueza de detalhes a maravilha que é estar no carro e deslizar pelo asfalto, sentir o vento e a liberdade na cara, imaginar a quantidade de marchas que é capaz de fazer, a capacidade incrível que os auto falantes alcançam. No fim do dia, os que preferem a primeira da duas escolhas, estão sentados de pernas cruzadas, de olhos abertos, muito muito secos, a baba escorrendo dos lábios, queixo e chão fazendo uma ponte entre a sujeira do asfalto e a língua. Estão sonhando acordados.
Já para os infelizes que ficam com a segunda opção, eles ficam apenas sentados. De alguns, nem posso dizer que observam o movimento. E é ali que ele se encontra.
